sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Corpo sobre Corpo

Estávamos juntos há uns três meses. Eu ficava inebriado na presença dela. Morávamos no mesmo prédio, ela passava quase todas as noites em meu apartamento. Tínhamos uma relação completamente carnal. Às vezes ela sumia por alguns dias, geralmente nos finais de semana, nunca me avisava e eu não me importava.

Aquela vez eu me importei, não sei exatamente o porquê. Ela sumiu na quarta e só reapareceu na terça feira. Decidi então que deveria pedi-la em namoro. Convenci-me que a amava. Decidi que faria isso no sábado e ela sumiu novamente. Quase perdi a coragem. Quando ela voltou, na terça, fizemos amor e já na cama, ela fumando seu habitual cigarro eu fiz a proposta.

- Sabe, acho que deveríamos namorar...

Falei como se não me importasse tanto.

- Acho que não. Pra que?

Não era bem a reação que eu queria. Sentei-me, encostado na cabeceira da cama.

- Eu te amo.

Ela me olhou por alguns segundos.

- Não ama não...

- O quê?

Ela não poderia ter dito aquilo. Pegou minhas mãos e as foi passando pelo seu corpo nu.

- Não me ama não. Ama meu corpo. Meu corpo que fica sobre o seu quase todas as noites. E quer garantia de tê-lo só para si. Não se finja de ingênuo.

Ela desarmou-me. Mas eu tinha sido ingênuo, realmente acreditei que a amava. 22 anos e ainda ingênuo como uma criança.

- Não precisa me dizer nada...

Beijou-me e subiu em cima de mim.

domingo, 10 de outubro de 2010

Antiga (?) Sociedade

Em uma terra distante vivia uma estranha sociedade. Sociedade essa que determinava algumas regras de convívio, embora não punisse aqueles que não as cumprissem. Pensando bem, não eram regras de convívio, não eram mandamentos, eram indicações, conselhos. Coisas básicas de fraternidade. Não entremos no mérito dessas indicações. Pois bem, tal sociedade não punia quem não seguia tais indicações e não agraciava quem as seguia. O livre arbítrio era total. Essa sociedade tinha regras, mas essas agiam independentes das indicações que falo.

Pois bem, me equivoquei quando disse que as pessoas que seguiam tais indicações não eram agraciadas. Elas eram. Eram mortas e comidas pelos líderes daquela sociedade, tendo para o resto da sociedade uma morte honrada e justa, pois se acreditava que quando os líderes as devoravam estavam absorvendo as qualidades que levavam as pessoas a conseguir seguir as indicações. Raramente um dos líderes era devorado pelos seus semelhantes.

Tal fato lentamente fez essa sociedade decair. Lentamente as pessoas que integravam a sociedade perceberam que era muito mais benéfico não seguir tais indicações e continuar vivo. De que serve a honraria quando se está morto, afinal? Lentamente a sociedade começou a declinar, cada vez mais.

Já no final, a sociedade tornou-se o caos. No final das contas todas as regras e indicações pararam de ser seguidas e os poucos que ainda mantinham sua sanidade fugiram. A sociedade se destruiu sem seus sacrifícios, engolida na própria destruição.

domingo, 12 de setembro de 2010

Tela brilhante

Sozinho, sento-me em frente a esta tela brilhante e colorida nesse dia acinzentado. As palavras espalhadas pela tela me fazem companhia. Tenho coisas a fazer, mas não as faço. Preguiça, eu diria. Não faço nada de interessante. As letras que me fazem companhia não são muito interessantes. O azul, vermelho, amarelo e verde sempre presente em minha tela zomba de mim. Dá-me acesso a tudo, ainda sim, fico aqui sem fazer nada. É somente mais um dia com coisas que deveriam ser feitas, mas que ficarão para mais tarde. Talvez mais tarde ainda hoje, talvez somente amanhã ou talvez nunca. Não sei. O assunto não me interessa muito, então não penso em demasia sobre o fato. Sinto-me cansado desse nada, mas aprecio a minha companhia brilhante dessa tela. Ah, essa ilusão de estar acompanhado. Fantasmas eletrônicos, sozinhos junto comigo. Deveria fazer algo com alguma utilidade. Mas no final, que importa? O dia continua cinza, mas agora a tela está negra, desliguei-a. Não sei o porquê na verdade, acho que me irritei com aquelas letras. Azul, vermelho, amarelo, azul, verde e vermelho. Uma porta para tudo. Nem sei por onde começar, então, não começo. Desisto. Por hora.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sangue Negro


Escrevo estas palavras com sangue,

Sangue que deveria ser rubro,

Mas não o é.

Sangue que é negro,

Negro como tinta,

Negro como a lua que me olha.

Pensa você que minto,

A Lua é branca, pensa você.

E digo-lhe que tem razão,

A sua Lua é branca.

Mas a minha lua é negra,

Negra como o sangue que se esvai de mim,

Que está agora nas pontas de meus dedos,

Para escrever este poema não poético,

Possivelmente patético.

Este grito surdo de um homem que não tem certeza,

Não tem certeza de nada,

Nem se é homem ainda.

Talvez seja somente um reflexo do que já foi.

Talvez, ainda pior, seja agora o que sempre foi.

Talvez, menos pior, não seja nada disso.

Mas o sangue, negro como a lua acima,

Esvai-se a uma velocidade incrível

E ainda sim fico impassível

Não pensando na morte,

Essa já não me assusta,

Pensando na minha falta de tinta.

Pois morrer é não poder escrever,

E escrever é morrer,

Pois tudo que escrevo, escrevo com sangue.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Perfurado

Espinho por espinho, cada um deles saindo lentamente. E o sangue jorra. Jorra muito a cada espinho que sai. A cada batida do coração, cada vez que ele se contorce, um espinho se move mais um pouco para fora. Duas batidas do coração, o espinho sai, deixando atrás de si um pequeno buraco. Pequenos são os buracos, mas o sangue jorra em abundância desses furos de agulha. E o coração continua assim, libertando-se de seus espinhos e sangrando. O sangue vermelho tingindo a tudo por perto, afinal o coração o expele com grande força. Ele vai e não volta. Abandona em definitivo aquele coração pulsante. Pulsante e vermelho, mas o coração parece perder um pouco de sua força cada vez que um pouco de sague sai dele, sua pulsação cada vez mais fraca e lenta, mas o sangue ainda jorra. O coração já quase morrendo, mas o sangue continua a sair, não jorra mais, escorre, escorre porque o coração já não é mais forte como costumava. O coração já não agüenta mais e agora a pulsação é difícil de ser percebida, de tão fraca que se tornou. Já não tem mais força este coração. Já não tem mais sangue este coração. Já não tem mais cor este coração. Tornou-se parado este coração. Tornou-se frio este coração. Tornou-se cinza este coração. Tornou-se, por fim, um coração de pedra.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sangue...





Eu escutei um grito, agudo, forte e irreal. Olhei para trás e ainda a vi caindo. Não sabia exatamente o que tinha acontecido, a rua estava silenciosa e o som do corpo dela atingindo o chão despertou-me de minha paralisia momentânea. Corri até ela, o tempo andando muito devagar. Ela estava a alguns passos de mim, mas pareceram-se passar anos até eu chegar até onde ela estava. Tirei o meu celular do bolso e liguei para emergência. O olhar no rosto dela era terrível... Alguém a tinha esfaqueado. Ela sabia que não sobreviveria, eu também sabia. Agarrei a mão dela e fiz sinal para que não falasse e pus uma de minhas mãos no ferimento, tentando estancá-lo.
- Você vai ficar bem, menti, só não fale, você vai ficar bem.
Ela me olhou como nunca tinha olhado antes. Segurou meu rosto, eu começara a chorar, lágrimas escorregando levemente por minhas bochechas, ela enxugou uma de minhas lágrimas. Segurei a mão dela o mais forte que pude.
- Eu te amo.
Minha voz mal saiu. Ela sorriu como se me dissesse que já sabia e que também me amava. Ela também chorava.
Ouvi a ambulância chegar ao longe. Era tarde demais. Eu tentara estancar o sangue, mas não foi o suficiente. Ela morrera alguns segundos antes de eu ouvir a ambulância chegar, mas anos pareceram se passar para mim. Algo dentro de mim morrera junto com ela. Olhei para minha mão cheia de sangue, ainda quente. Eu também estava morto.

[Imagem de Mohzart]

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Rumos.

Perambulava sem rumo por aí. Sem começo nem fim, minha rota estendia-se ao infinito, delimitada somente pela as forças de minhas pernas. O horizonte estende-se até onde não vejo nada além de pequenos pontos cinza. O mundo é acinzentado, preto e branco misturam-se em um gradiente sem nenhum padrão. Caos organizado em um mundo que só quem fica louco consegue entender. Caminho em direção a minha sanidade... Sendo engolido por cada rua, eu avanço, mas a distância que me falta para chegar parece cada vez aumentar mais. Aumento o passo, corro, parado, em direção ao explicável, e cada vez mais o inexplicável me atinge como um punho de ferro. Esmaga-me e destrói-me para eu me levantar, não mais forte só levemente mais resistente. Engano-me a cada esquina, acreditando ter chegado ao meu destino, embora saiba que eu nunca o atingirei. Canso. Descanso. Volto a correr, já não parado. Entro em prédios, adentro em pessoas, sempre procurando a razão. Sinto que deveria ficar louco para encontrar a verdadeira lógica deste caos organizado.

Desisto momentaneamente. Paro. Penso na irrealidade de minha busca eterna. No final, serei mais nada que uma lembrança. Desisto de desistir. Sinto-me sendo engolido por tudo e por todos. Percebo que talvez a única razão esteja dentro de mim. Outra jornada. Outra vida.