terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sangue Negro


Escrevo estas palavras com sangue,

Sangue que deveria ser rubro,

Mas não o é.

Sangue que é negro,

Negro como tinta,

Negro como a lua que me olha.

Pensa você que minto,

A Lua é branca, pensa você.

E digo-lhe que tem razão,

A sua Lua é branca.

Mas a minha lua é negra,

Negra como o sangue que se esvai de mim,

Que está agora nas pontas de meus dedos,

Para escrever este poema não poético,

Possivelmente patético.

Este grito surdo de um homem que não tem certeza,

Não tem certeza de nada,

Nem se é homem ainda.

Talvez seja somente um reflexo do que já foi.

Talvez, ainda pior, seja agora o que sempre foi.

Talvez, menos pior, não seja nada disso.

Mas o sangue, negro como a lua acima,

Esvai-se a uma velocidade incrível

E ainda sim fico impassível

Não pensando na morte,

Essa já não me assusta,

Pensando na minha falta de tinta.

Pois morrer é não poder escrever,

E escrever é morrer,

Pois tudo que escrevo, escrevo com sangue.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Perfurado

Espinho por espinho, cada um deles saindo lentamente. E o sangue jorra. Jorra muito a cada espinho que sai. A cada batida do coração, cada vez que ele se contorce, um espinho se move mais um pouco para fora. Duas batidas do coração, o espinho sai, deixando atrás de si um pequeno buraco. Pequenos são os buracos, mas o sangue jorra em abundância desses furos de agulha. E o coração continua assim, libertando-se de seus espinhos e sangrando. O sangue vermelho tingindo a tudo por perto, afinal o coração o expele com grande força. Ele vai e não volta. Abandona em definitivo aquele coração pulsante. Pulsante e vermelho, mas o coração parece perder um pouco de sua força cada vez que um pouco de sague sai dele, sua pulsação cada vez mais fraca e lenta, mas o sangue ainda jorra. O coração já quase morrendo, mas o sangue continua a sair, não jorra mais, escorre, escorre porque o coração já não é mais forte como costumava. O coração já não agüenta mais e agora a pulsação é difícil de ser percebida, de tão fraca que se tornou. Já não tem mais força este coração. Já não tem mais sangue este coração. Já não tem mais cor este coração. Tornou-se parado este coração. Tornou-se frio este coração. Tornou-se cinza este coração. Tornou-se, por fim, um coração de pedra.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sangue...





Eu escutei um grito, agudo, forte e irreal. Olhei para trás e ainda a vi caindo. Não sabia exatamente o que tinha acontecido, a rua estava silenciosa e o som do corpo dela atingindo o chão despertou-me de minha paralisia momentânea. Corri até ela, o tempo andando muito devagar. Ela estava a alguns passos de mim, mas pareceram-se passar anos até eu chegar até onde ela estava. Tirei o meu celular do bolso e liguei para emergência. O olhar no rosto dela era terrível... Alguém a tinha esfaqueado. Ela sabia que não sobreviveria, eu também sabia. Agarrei a mão dela e fiz sinal para que não falasse e pus uma de minhas mãos no ferimento, tentando estancá-lo.
- Você vai ficar bem, menti, só não fale, você vai ficar bem.
Ela me olhou como nunca tinha olhado antes. Segurou meu rosto, eu começara a chorar, lágrimas escorregando levemente por minhas bochechas, ela enxugou uma de minhas lágrimas. Segurei a mão dela o mais forte que pude.
- Eu te amo.
Minha voz mal saiu. Ela sorriu como se me dissesse que já sabia e que também me amava. Ela também chorava.
Ouvi a ambulância chegar ao longe. Era tarde demais. Eu tentara estancar o sangue, mas não foi o suficiente. Ela morrera alguns segundos antes de eu ouvir a ambulância chegar, mas anos pareceram se passar para mim. Algo dentro de mim morrera junto com ela. Olhei para minha mão cheia de sangue, ainda quente. Eu também estava morto.

[Imagem de Mohzart]

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Rumos.

Perambulava sem rumo por aí. Sem começo nem fim, minha rota estendia-se ao infinito, delimitada somente pela as forças de minhas pernas. O horizonte estende-se até onde não vejo nada além de pequenos pontos cinza. O mundo é acinzentado, preto e branco misturam-se em um gradiente sem nenhum padrão. Caos organizado em um mundo que só quem fica louco consegue entender. Caminho em direção a minha sanidade... Sendo engolido por cada rua, eu avanço, mas a distância que me falta para chegar parece cada vez aumentar mais. Aumento o passo, corro, parado, em direção ao explicável, e cada vez mais o inexplicável me atinge como um punho de ferro. Esmaga-me e destrói-me para eu me levantar, não mais forte só levemente mais resistente. Engano-me a cada esquina, acreditando ter chegado ao meu destino, embora saiba que eu nunca o atingirei. Canso. Descanso. Volto a correr, já não parado. Entro em prédios, adentro em pessoas, sempre procurando a razão. Sinto que deveria ficar louco para encontrar a verdadeira lógica deste caos organizado.

Desisto momentaneamente. Paro. Penso na irrealidade de minha busca eterna. No final, serei mais nada que uma lembrança. Desisto de desistir. Sinto-me sendo engolido por tudo e por todos. Percebo que talvez a única razão esteja dentro de mim. Outra jornada. Outra vida.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Frio...

Um corpo contorcido, frio, por dentro, deitado na cama. Não sabe o porquê exatamente está ali. Convenção social, talvez, pensa. Está embaixo de três cobertores. Somente os pés ainda frios. Quer dizer, os pés e a alma. É possível ver o azul profundo da alma, brilhante, azul de frio, não de paz, como é costume. Está retorcida esta alma, diminuta, como o corpo, tentando esquentar-se usando a si mesma. O corpo esquentou-se levemente, agora os pés já não mais tão frios. Está coberto e consegue esquentar-se devagar. A alma, entretanto, paira lá, sozinha, sem cobertura alguma. Treme. Enfraquece. E continua contorcida, agarrada em si mesma, buscando esquentar-se. O corpo dorme e a alma continua a tentar se esquentar. Estabiliza-se por fim, pequena, minúscula perante o que poderia ser. Com frio, entristecida por estar reduzida a tal tamanho ridículo a alma se inquieta e o sono do corpo é perturbado. Não acorda, entretanto, está por demais cansado para levantar-se. Se a alma não está bem, eu preciso ficar bem, quase é possível escutar o corpo dizendo. E a alma resigna-se, toma seu lugar, fria, azul, encolhida. O corpo esquenta-se por si só. A alma treme e quase se apaga. A esperança a mantém acesa. A alma não mantém lembranças como o corpo, mas sabe que foi maior, que pode ser maior. Espera, anseia por tal oportunidade. Cresce um pouco e acalma-se.
Acordo como se tivesse passado a noite fora de meu corpo. Talvez tenha sido o que aconteceu... Não lembro o que vi. Sinto-me acordado, mas algo me deixa cansado. Estranho, dormi bastante esta noite, mais do que o costume. O telefone toca. Escuto aquela voz familiar e algo dentro de mim cresce um pouco...

domingo, 1 de agosto de 2010

O peso da solidão

Deito em minha cama, sozinho. Minha cabeça lentamente afunda no travesseiro enquanto eu afundo lentamente em minha solidão. A escuridão me abraça com seus leves braços aconchegantes. Reviro-me em minha cama, indo de um lado ao outro com meu corpo. Um só tentando preencher o espaço de dois, tentando criar uma ilusão de duplicidade. Percebo a mentira que meu corpo tenta criar, embora isso não mude o fato que às vezes ela funciona. É a melhor maneira. O silêncio é quase total, fora pelo leve barulho de minha respiração. Não tenho certeza se gosto dele... Mudo de opinião a cada vez que expiro e inspiro novamente. Neste momento não vivo, meramente estou aqui, preenchendo um espaço, sem importância. O fato me alivia um pouco. Ou talvez não. Gosto de dar-me mais importância que de fato tenho, todos gostamos. Ao menos na maior parte do tempo. O som de minha respiração pára. Não, não estou morto. Ele só estava me irritando. Passo dias segurando o ar dentro de meus pulmões. Ao menos parecem ter sido dias. Acendo meu abajur e vejo que não se passaram nem 2 minutos desde que deitei. Desisto. Durmo completamente envolto em mim mesmo. Tenho milhares e milhares de sonhos, um durando cada vez mais que o outro. O ar ainda parece estar preso dentro de meus pulmões, mas agora força a saída. Explodo.
Acordo gritando, todo o ar que meus pulmões conseguem segurar saindo de uma só vez num grito inumano, mas completamente normal. Não gritei de pavor. Gritei para voltar à vida. Morri a cada final de sonho que tive, vivi milhares de vidas em apenas algumas horas. Acendo a luz. Não, foram meros 15 minutos. Maldito relógio, tenho vontade de atirá-lo ao chão. Por que não? Agarro e atiro ao chão. Vejo-o espalhar-se em milhares de pedacinhos. Pisco e nada aconteceu. Solidão... Ela pesa, esmaga, tira o meu fôlego. Desmaio de solidão. Ao menos dormi. Ou morri. Não interessa... Paz. Estou em paz. Ao menos por algumas horas.