quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Sobremesa

Ele levanta-se antes de sua mulher. A rotina já definida, ela toma banho primeiro, e faz o café enquanto ele toma banho. Cada manhã uma cópia exata da anterior. Até mesmo nos finais de semana eles agem assim. Força do hábito. Eles já nem percebem a repetição. Quarto, banheiro, cozinha, quarto. Cueca, calça, camisa, meias e sapatos só depois do café. Ela sai, ele sai, casa esvazia-se...

Ele chega ao trabalho, dia de reunião, o chefe o parabeniza pelos resultados. “Bônus grandes esse ano”, diz ele. Que fará com o dinheiro? Mais uma viagem pra Europa...? Talvez só deixe parado na poupança. Reunião termina tarde, só pode sair pro almoço quando o restaurante de sempre já está fechado. A lanchonete do outro lado da rua não parece tão ruim, pensa ele. Ele entra, o lugar vazio, pede um sanduíche qualquer. A comida é ruim, a garçonete é boa, nem tudo na vida é perfeito. Ele sai, fuma um cigarro, a vida não muda muito de cor vista através da fumaça. A garçonete diz tchau para ele, amigável, muito amigável. Aquele decote... Ele volta de uma vez para o trabalho.

Os dias se seguem e ele continua voltando à lanchonete. Visão triunfa sobre o paladar. Ele flerta com a garçonete, ela flerta de volta. Dias se passam.

Ele termina sua comida, o celular vibra, a esposa chegará a casa ainda mais tarde hoje. Ele sai, fuma, volta.

- Que horas você sai hoje?

Finalmente ele pede a sobremesa.

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