segunda-feira, 26 de julho de 2010

Sabores da Vida.

É a terceira vez só nessa semana. Que estou dizendo... Na verdade eu nem sei mais o que é uma semana. Digo-lhe semana embora talvez tenha passado um mês. É difícil ter uma boa percepção do tempo quando tudo que você faz é morrer. Bem, continuemos com “semana”. Foi a terceira vez. Morri pela terceira vez essa semana. Pois é. Morro mortes doces, salgadas, de todos os tipos de sabores, com coberturas e sem. É estranho lhe dizer morte doce, reconheço. Mas, há você de admitir, é estranho alguém morrer várias vezes em um curto, ou longo (tudo depende do ponto de vista) período de tempo. Exemplificar-lhe-ei, embora... Já não tenho tanta certeza. Despejo essas palavras no papel de forma apressada, não quero pensar tanto sobre o que lhe digo e não sei se entenderia sobre minhas mortes. De qualquer forma... Estou aqui. Preso num ciclo interminável de mortes. Algumas delas doces, outras salgadas e ainda aquelas, as piores, amargas.
Enfim... Decidi por tentar explicar a você o que quer dizer uma morte doce. Embora... Ah, foda-se. Deixemos de enrolação. Morro mortes doces porque simplesmente vivo momentos doces. A final de cada momento doce eu sofro de uma leve, pequena e agradável morte doce. Estranho, é claro, e dizer a você que morro mortes salgadas. Ué, se você diz que existem momentos doces, por que não salgados? Divago... Momentos salgados, para mim, são momentos em que você não tem certeza de gostá-los a principio, mas percebe que eles valeram à pena. Classifico-os assim, e você tem todo direito de discordar de mim. Momentos amargos são, como você deve imaginar, o contrário de momentos doces. Não falarei demais sobre eles, não gosto deles e imagino que você também não.
Já não sei mais sobre o que escrevo... Jaz aqui um leve desabafo sobre minhas mortes semanais (ou mensais). Vivo e morro. A vida é boa só quando uma saborosa morte me espera ao final do dia.

domingo, 25 de julho de 2010

Lágrima...

Há muito tempo atrás eu conheci uma mulher incrível. Incrível mesmo. Ela se mudou para cá e conheceu uma de minhas primas. Nós nos conhecemos em uma festa de família. Pois é, que lugar para conhecer alguém. Acho que foi pela nossa surpresa que tudo começou tão bem, nenhum dos dois esperava conhecer alguém ali, estávamos com a guarda baixa. A conversa fluiu de uma maneira incrível. Todos no lugar perceberam, inclusive, acho que nós dois fomos os últimos a se tocarem do que estava acontecendo de tão distraídos que estávamos na nossa conversa. Ficamos sentados conversando por mais de duas horas, acho. Poderiam ter sido dias que, ainda sim, não teríamos percebido o tempo passando. Peguei o telefone dela. No nosso primeiro encontro, nossa comida esfriou, porque simplesmente não conseguíamos parar de conversar. Na verdade, às vezes nós parávamos de conversar. Olhávamos um para o outro sem dizer nada. Eu parecia estar sonhando acordado. Acho que ela também se sentia assim.

Parecia que nós nos conhecíamos há anos. Foi incrível. Começamos o namoro uma semana depois. Você pode dizer que foi rápido demais, mas tudo correu tão bem, tão certo. E foi certo. Passamos um bom tanto de tempo naquele estado apaixonado, onde tudo é maravilhoso. Claro, nossa relação evoluiu, nos conhecemos cada vez mais e brigávamos às vezes e tínhamos algumas discussões. Nada fora do comum. Éramos felizes e apaixonados mesmo vários meses depois. Era incrível. Realmente incrível. Lembro que algumas vezes ela me olhava como se visse algo muito maior que eu, como se visse até o fundo de minha alma. Ninguém nunca tinha me olhado daquela maneira. Ela me falava o mesmo quando me pegava a olhando.

- Sabe, têm vezes você me olha como se visse até o fundo de minha alma. Ninguém nunca me olha assim.

- Eu nunca olho ninguém assim – eu lhe respondia.

Eram sempre as mesmas duas frases. Não importava, era como se fosse uma coisa nova a cada vez que fazíamos. Era algo nosso. Só nosso.

Continuamos assim por um grande período de tempo. Já não lembro quanto, memórias antigas ficam um pouco confusas. Lembro que o casamento já parecia iminente. Eu conheci a família dela, todos me adoraram. Ou ao menos pareceram me adorar. E ela já era próxima de minha família. Continuava sendo uma das melhores amigas de minha prima. Só faltava o pedido. E eu sabia que isso também não iria demorar muito. Na verdade, eu já pensava nisso seriamente. Foi quando aconteceu.

Deste fato lembro-me o dia. Foi numa quinta-feira. Eu acabara de chegar do trabalho, tinha tomado um banho e quando ainda estava me secando ouvi o telefone tocar, o atendi e era o pai dela. Estavam no hospital, a irmã dela tinha estado num acidente de carro e estava na sala de cirurgia. Ele não falou muito, imagino que o velho também segurasse as lágrimas.

- Venha o mais rápido que puder.

Fiz o que ele me mandou. Arrumei-me o mais rápido possível e saí. Quando cheguei lá a irmã dela já havia falecido. Soube assim que cheguei lá. A tristeza pesava no ambiente. Ela notou que eu chegara e correu para meus braços. Deviam ter recebido a noticia há pouco, ninguém chorava. Quando a abracei foi que ela conseguiu botar para fora. Acho que ouvi-la chorar desencadeou tudo. A mãe dela começou a chorar também. Eu a levei para minha casa, ela não tinha condições de passar a noite sozinha.

No caminho para minha casa, no carro, notei uma coisa que achei que fosse impressão minha. As lágrimas dela pareciam vir de um só olho. Achei aquilo estranho, mas não perguntei nada naquele momento, não era o momento de perguntar. Passaram-se dias, semanas e ela começava a voltar ao normal. Depois daquele dia, tiramos férias e eu comecei a cuidar dela. Acabamos por começar a morar juntos. Ela chorara muito na primeira semana e agora já não me restavam dúvidas. Só saiam lágrimas por um olho dela. O esquerdo.

Perguntei o porquê do fato só algum tempo depois do trauma ter passado. Quero dizer, diminuído. Eu tentei esquecer aquilo, mas simplesmente não conseguia. De repente era só uma coisinha de nada. Mas ela não respondeu na primeira vez que perguntei, nem na segunda. Ela desviava o assunto de forma magistral. Desisti por um tempo. Nós noivamos alguns meses depois e casamos um pouco depois de um ano da morte de sua irmã. Tudo continuava maravilhoso, exceto por aquele pequeno segredo. Algum tempo depois de casarmos, perguntei a ela de novo. Então ela me explicou.

Ela passou muito tempo me explicando o porquê daquilo. Confesso que não acreditei nela logo no começo, mas à medida que ela falava ia me convencendo. Não era possível ela criar uma história tão absurda. Não vou reproduzi-la aqui, é muito longa e os detalhes em nada acrescentariam a minha história. O que é preciso saber é que a causa disso era uma maldição, uma maldição que pairava sobre a família dela, afetando somente as mulheres e pulando uma geração. A irmã dela sofria da mesma maldição, que faz com que a pessoa chore somente com um só olho. Ela contou-me que as palavras da maldição eram algo nos moldes de “A partir deste dia, você chorará com somente um olho, todos saberão que aprecia o drama em sua vida, aprecia mais as tristezas, os infortúnios que lhe acontecem e acontecem para aqueles ao seu redor do que as suas felicidades.”

Pegou-me de surpresa toda a história. Quer dizer que ela não ficara completamente triste com a morte de sua irmã?! Ela olhava-me como se soubesse o que eu pensava. Deixei de lado meus pensamentos. Essa era a mulher que eu amava. O que interessava se ela não tivesse ficado triste pela morte de sua irmã? “Talvez porque isso signifique que ela não se importava realmente nem com a própria irmã, que dirá do marido?!”, escutei uma voz dizendo dentro de minha cabeça.

Passaram-se dias, semanas, meses e anos; e aquilo eventualmente foi se esvaindo de minha mente, escorregando lentamente para aquele espaço de memórias que nós já não nos importamos. Tivemos dois filhos nesse tempo. Passamos por muita coisa juntos e embora em alguns momentos tenhamos cogitado a separação, isso nunca aconteceu. Éramos realmente conectados, acredito.

Era um sábado, decidimos sair eu e ela. Deixamos as crianças na casa de minha mãe e fomos ao shopping. Assistimos a um filme e quando chegamos ao carro um homem parou do meu lado e encostou-me uma faca. Ele tremia. Tomei um susto pela ponta da faca encostando-se em mim e desviei automaticamente. Ele enfiou a faca entre minhas costelas. Senti-a entrando e saindo rapidamente. Caí. Ele entrou no carro e saiu rapidamente dali. Ela olhou para mim, apavorada, não tinha idéia do que fazer, segurou minha mão enquanto gritava para alguém me ajudar. Não tinha tempo, eu sentia. Sentia a vida se esvaindo de mim juntamente com meu sangue. Ia fechar os olhos quando ela começou a chorar. Paramédicos chegavam e ela desviou o olhar de mim. Vi lágrimas escorrendo pelo lado de seu rosto e apaguei, para nunca mais acordar. Morri com a minha esposa segurando minha mão e chorando. Mas não consigo lembrar se o lado do rosto dela que via era o direito... Ou o esquerdo.

domingo, 11 de julho de 2010

Acordei (dormi?). Estava lá deitado, num lugar duro, que eu não conhecia.
Olhava e olhava e olhava. Nada (tudo?), não conhecia nada ali. Era um lugar cinza, branco, preto. Tudo ao mesmo tempo e nenhum desses três juntos, na verdade. Não sei bem o que era, pelo jeito minha memória já me falha. Levantei, disto eu lembro, com a ajuda das mãos. Elas sangravam, ou pareciam sangrar, afinal algo vermelho, que parecia ser sangue, fluia de minhas palmas. Não doiam, entretanto. Aliás, quase não as sentia. Já estava de pé quando olhei para baixo. Tinha escrito uma letra com cada mão enquanto levantava. Como seria possível? Olhei de novo. Não... Eram só duas manchas de sangue. As mãos tinham parado de sangrar. Os pés tinham tomado seu lugar no sangramento. Você deve imaginar que sentia dor nos pés, por isso percebi que eles estavam sangrando, mas não, dor não foi algo que senti naquele momento. Percebi por falta melhor do que fazer. Dei dois passos para a frente. Olhei para o sangue.
FIM
Pisquei. Devia estar vendo coisas. Olhei de novo.
Alma
Devia estar ficando maluco.
Acordei (ou dormi?).

sábado, 10 de julho de 2010

Você já teve um dia bom?
Se você nunca teve um dia bom, eu sinto pena de você.
Mas de qualquer jeito, retomando o assunto.
Alguma vez, depois desse dia bom, você já chegou em casa e parece que, de repente, o dia bom nem existiu? Que só tem um vazio. Mas foi um dia bom...
Por que tem um vazio?